Axolote: o “monstro aquático” que regenera membros e fascina a ciência
Conheça o Axolote, salamandra rara que regenera órgãos e inspira a ciência. Um símbolo cultural mexicano em risco de extinção.
NATUREZA CURIOSA
Lucas Muniz
9/29/20257 min read


O que é o Axolote?
O Axolote (Ambystoma mexicanum) é um anfíbio aquático nativo do México que parece ter saído de uma lenda. Conhecido popularmente como “monstro aquático”, ele chama atenção por manter, mesmo na fase adulta, características típicas de larvas, como as brânquias externas em forma de “penas” e a nadadeira dorsal que percorre boa parte do corpo.
Enquanto rãs e sapos passam por uma metamorfose completa para se tornarem adultos terrestres, o Axolote permanece com aparência juvenil durante toda a vida — um fenômeno chamado neotenia. Essa peculiaridade, somada à sua incrível capacidade de regenerar membros, cauda e até partes de órgãos internos, faz dele um dos animais mais fascinantes e estudados pela ciência.
Além de sua importância biológica, o Axolote também possui um forte valor cultural: seu nome vem da mitologia asteca e significa “monstro da água” ou “cachorro da água”. Hoje, ele é símbolo da biodiversidade mexicana e, ao mesmo tempo, um alerta sobre os riscos da perda de habitat, já que está classificado como criticamente ameaçado de extinção.
Axolote em exibição no Steinhart Aquarium, São Francisco. Foto de Stan Shebs, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
Origem e Mitologia
O Axolote tem suas raízes no coração do México, mais especificamente nos lagos de Xochimilco e Chalco, na região da Cidade do México. Esses ambientes aquáticos, ricos em nutrientes e vegetação submersa, foram durante séculos o habitat perfeito para a sobrevivência e reprodução desse anfíbio tão peculiar.
Mas o Axolote não é apenas um animal curioso do ponto de vista biológico — ele também carrega um forte simbolismo cultural. Seu nome vem do náuatle, língua dos povos astecas, e pode ser traduzido como “monstro da água” ou “cachorro d’água”.
Na mitologia asteca, o Axolote está diretamente ligado ao deus Xólotl, irmão gêmeo de Quetzalcóatl. Xólotl era associado ao fogo, ao pôr do sol e às transformações. Conta a lenda que, para escapar de ser sacrificado, ele se transformou em várias criaturas, sendo uma delas o Axolote. Por isso, o animal era visto como um ser sagrado, um símbolo de resistência e metamorfose.
Hoje, além de ser estudado pela ciência, o Axolote também é considerado um patrimônio cultural mexicano, aparecendo em obras de arte, literatura e até como mascote em campanhas de preservação ambiental.


Axolote em cativeiro, espécie endêmica do México. Foto de Amandasofiarana, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Características Biológicas
O Axolote é um anfíbio de água doce que pertence à família Ambystomatidae. Diferente da maioria dos seus “primos” (como rãs e sapos), ele apresenta um fenômeno chamado neotenia: permanece com características juvenis durante toda a vida. Isso significa que, mesmo adulto, continua com brânquias externas em forma de plumas e uma nadadeira dorsal que percorre boa parte do corpo, adaptadas para a respiração e locomoção subaquática.


Axolote em exibição no Aquarium Dubuisson, Liège. Foto de Vassil, via Wikimedia Commons (CC0 1.0 – Domínio Público).
Principais características:
Corpo alongado e cauda achatada → perfeitos para a vida aquática.
Brânquias externas → permitem a troca de oxigênio diretamente na água.
Olhos pequenos e visão limitada, mas compensados por um olfato apurado.
Cores variadas: na natureza, geralmente tons escuros (marrom, preto, cinza); em cativeiro, há variações albinas, douradas e rosadas.
Alimentação carnívora: pequenos peixes, vermes, crustáceos e insetos aquáticos.
Comportamento noturno: mais ativo à noite, quando caça suas presas.
Além disso, o Axolote pode viver 10 a 15 anos em boas condições, especialmente em ambientes de água limpa e fria. Essa longevidade, somada à aparência “eterna de bebê”, faz dele um dos animais mais carismáticos e estudados do mundo
O superpoder da regeneração
Entre todas as características do Axolote, nenhuma é tão impressionante quanto sua capacidade de regeneração. Esse pequeno anfíbio consegue reconstruir membros inteiros, como patas e cauda, mas não para por aí: estudos mostram que ele também é capaz de regenerar partes do coração, pulmões, medula espinhal e até regiões do cérebro.


Axolote mexicano em aquário, mostrando suas brânquias externas. Foto de PetarM, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Como funciona esse processo?
Quando o Axolote sofre uma amputação, as células da região lesionada não formam uma cicatriz, como acontece em humanos. Em vez disso, elas retornam a um estado semelhante ao embrionário, criando uma estrutura chamada blastema. Esse aglomerado de células funciona como uma “fábrica biológica”, capaz de reconstruir o tecido perdido de forma precisa.
Pesquisas recentes apontam que o ácido retinóico, derivado da vitamina A, atua como um verdadeiro “GPS biológico”. Ele orienta as células sobre qual parte do corpo deve ser regenerada e em qual posição. Se o animal perde uma pata no ombro, por exemplo, o ácido retinóico guia a formação de um membro completo; se a perda ocorre no antebraço, apenas a parte correspondente é reconstruída.
Por que isso fascina a ciência?
O Axolote é considerado um modelo de estudo em medicina regenerativa.
Pesquisadores acreditam que compreender seus mecanismos celulares pode abrir caminho para novos tratamentos em humanos, como regeneração de tecidos, órgãos e até recuperação de lesões neurológicas.
Diferente de outros animais com regeneração limitada (como lagartixas, que regeneram apenas a cauda), o Axolote apresenta um potencial quase ilimitado.
Esse “superpoder” faz dele um verdadeiro ícone da biologia moderna, inspirando desde pesquisas científicas até aparições em jogos como Minecraft e em personagens da cultura pop.
Conservação e risco de extinção
Apesar de toda a sua importância biológica e cultural, o Axolote está classificado como “criticamente ameaçado de extinção” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A situação é alarmante: em 1998, estimava-se cerca de 6.000 indivíduos por quilômetro quadrado nos canais de Xochimilco; em 2014, esse número caiu para apenas 36. Hoje, acredita-se que restem entre 50 e 1.000 exemplares na natureza.


Filhote de axolote com poucos dias de vida. Foto de Orizatriz, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Esforços de conservação
- Projetos da UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México): cientistas trabalham na restauração dos canais e na criação de refúgios chamados chinampas, em parceria com agricultores locais.
- Criação em cativeiro: Axolotes são mantidos em aquários e laboratórios ao redor do mundo, o que ajuda a preservar a espécie e a apoiar pesquisas científicas.
- Educação ambiental: campanhas no México transformaram o Axolote em um símbolo de conservação, aproximando a população da causa.
Mais do que salvar um animal curioso, proteger o Axolote significa preservar um ecossistema inteiro e manter viva uma parte essencial da cultura mexicana
Principais ameaças:
Poluição da água: resíduos urbanos, pesticidas e fertilizantes contaminam os canais, afetando diretamente o Axolote, já que sua pele é altamente permeável.
Espécies invasoras: peixes como carpas e tilápias foram introduzidos na região e competem por alimento, além de se alimentarem dos ovos e filhotes de Axolote.
Perda de habitat: a urbanização da Cidade do México reduziu drasticamente o sistema lacustre original, restando apenas fragmentos em Xochimilco.
Curiosidades extras
Além de sua biologia única e importância cultural, o Axolote guarda uma série de curiosidades que o tornam ainda mais fascinante:


Grupo de axolotes. Foto de Regina Kolyanovska, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
Não é peixe, é anfíbio 🐸 → Apesar de viver na água e ter aparência de peixe, o Axolote é uma salamandra, pertencente à ordem dos anfíbios caudados.
Tamanho compacto 📏 → Pode chegar a até 45 cm, mas a maioria mede entre 15 e 30 cm. Seu peso varia de 60 a 230 g.
Expectativa de vida ⏳ → Vive em média 10 a 15 anos, tanto em habitat natural quanto em cativeiro, se bem cuidado.
Comportamento solitário 🌙 → É um animal territorialista, que prefere viver sozinho em aquários, semelhante ao comportamento de peixes betta.
Alimentação peculiar 🍽️ → Não possui dentes para mastigar, por isso engole presas pequenas e macias, como girinos, insetos, crustáceos e minhocas.
Exibição em zoológicos 🏞️ → No Brasil, é possível ver Axolotes no Zoológico de São Paulo. No México, há espaços dedicados exclusivamente a eles, como a Casa del Axolote, em Chignahuapan.
O Axolote é muito mais do que uma curiosidade da natureza: ele representa um verdadeiro enigma biológico e cultural. Sua capacidade de regenerar membros e órgãos, sua aparência única e sua ligação com a mitologia asteca fazem dele um dos animais mais fascinantes do planeta. Ao mesmo tempo, sua situação crítica de conservação nos lembra da fragilidade dos ecossistemas e da importância de preservar espécies ameaçadas. Proteger o Axolote significa não apenas salvar um anfíbio exótico, mas também manter viva uma parte essencial da biodiversidade e da cultura mexicana.
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Referências:
Wikipedia (PT): Axolote — https://pt.wikipedia.org/wiki/Axolote.
Britannica: Axolotl — https://www.britannica.com/animal/axolotl.
San Diego Zoo: Axolotl — https://animals.sandiegozoo.org/animals/axolotl.
Smithsonian Magazine: Axolotl facts — https://www.smithsonianmag.com/science-nature/axolotl-facts-180971215/.
Nature: The axolotl genome (2018) — https://www.nature.com/articles/nature25466.
Scientific American: How the axolotl regenerates its limbs — https://www.scientificamerican.com/article/how-the-axolotl-regenerates-its-limbs/.
BBC Future: Mexico’s axolotl: The ‘walking fish’ in peril — https://www.bbc.com/future/article/20210112-the-axolotl-mexicos-walking-fish-in-peril.
National Geographic Kids: Axolotl — https://kids.nationalgeographic.com/animals/article/axolotl.
AmphibiaWeb (UC Berkeley): Ambystoma mexicanum — https://amphibiaweb.org/species/3593.
Encyclopedia of Life (EOL): Ambystoma mexicanum — https://eol.org/pages/332549.
IUCN Red List: Ambystoma mexicanum — https://www.iucnredlist.org/species/1095.
CONABIO (México): Ambystoma mexicanum — https://www.biodiversidad.gob.mx/especies/ambystoma-mexicanum.